Domingo, 28 de Maio de 2006

«A Senhora Presidente pode olhar pelos Mapuches, por favor?»

«A Presidente do Chile, Michelle Bachelet veste um vestido azul e sente-se cómoda. O seu embaixador, o democrata-cristão Enrique Krauss, imposto pela Endesa e Martín Villa, o seu actual director-geral no Governo de Ricardo Lagos encarrega-se de despachar da lista e eliminar toda a pessoa indesejável na recepção oficial de intelectuais e gente da cultura que o reino de Espanha oferece à sua convidada.»

Assim começa um artigo de Marcos Rosenmann de La Jornada/La Rebelíon e publicado no site da Attac de Madrid. O que aconteceu depois foi mais ou menos isto:

José Saramago encontrava-se na homenagem à presidente do Chile e tomaria da palavra. Enfim, sempre era um nobel e era muito difícil encontrar-se no rol dos excluídos e indesejados. Portanto, tomaria a palavra. E quando a toma, pouco a pouco, a cor branca toma lugar da cara da Sra. presidente que até é socialista. São 10:30 da manhã e já está tudo mal-disposto. O embaixador Krauss, tipo corrupto e a soldo do antigo governo de Pinochet e com algumas acusações de tortura condizentes com esta colaboração, enquanto insulta Saramago deveria ter pensado, para consigo, que a proposta do governo de Espanha foi insensata. Se ainda fosse Vargas-Llosa, Carlos Fuentes ou Jorge Castañeda! Mas não, teria de ser aquele tipo?

Saramago centrou o discurso nos Mapuches que, neste momento, estão sob a alçada da Lei Anti-terrosrista podendo, portanto, ser presos, torturados e mortos sem quaisquer pressupostos legais, essa maçada dos governos modernos e fracos. Saramago:

«Quero pedir-lhe que olhe pelos Mapuches... falo da sua condição de Mapuches e de chilenos e de como os direitos dos chilenos não chegam até eles... Estes habitantes originários que têm estado arredados destes direitos, agora vêm-se atacados pelas multinacionais que vêm tirar-lhes a suas terras para construir indústrias... Assim, peço-lhe que o que vou dizer-lhe não o diga a mais nenhuma autoridade, mas há um tempo fui ao Chile e mantive uma reunião clandestina com uma Comunidade Mapuche, e quando saí do Chile, inteirei-me depois, esse mesmos Mapuches tinham sido detidos e estavam na prisão.»

A resposta da senhora foi lacónica. Não ocupou um simples minuto. 60 segundos. Que disse ela? Que a questão indígena sempre a preocupou muito. Não teve tempo certamente de falar em relatórios que falam de prisões indiscriminadas, greves de fome, expropriação violenta e ilegal de terras mapuches, detenções ilegais e acusações e decisões judiciais aplicadas com a Lei-Antiterrorista.

Este confronto teve lugar a 16 de Maio. Eu li-o, por acaso, a 22. No mesmo artigo de Marcos Rosenmann, também havia uma outra acusação: a do silenciamento dos media europeus. Os mapuches ainda não devem ter agências de comunicação, por certo.

 

publicado por António Luís Catarino às 18:13

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Quinta-feira, 11 de Maio de 2006

Quem ficou cá?

Sinto qualquer coisa de violento e desconfortável ao ver as cenas da imigração portuguesa dos anos 60, na RTP1. Não são propriamente as imagens dos bidonvilles enlameados e infectos que nos entram por casa, mas sim as declarações de quem, ainda há 20 anos, por lá se encontrava.

Quando se escolhe a Guerra Colonial para fugir de uma qualquer aldeia isolada de Trás-os-Montes ou do Alentejo, por que se tem fome e na guerra há a certeza das três refeições diárias, está tudo dito. Quando se foge, porque se está farto de beijar a mão ao padre, de fazer continência ao gnr, de baixar a cabeça ao tipo da junta. Qunado se foge por estar farto, aguenta-se qualquer bidonville, mesmo para patrões e intermediários, muitos deles portugueses.

Mas as perguntas que ficam são muitas. Porque não me lembro destas imagens se todos sabíamos o que se passava? Quem afinal, partiu? Que tipo de homem e mulher deixou isto? Provavelmente os melhores, mas o problema maior, aquele que nos assalta ao ver aquelas imagens que são murros no nosso estômago, é aquele que formula uma outra pergunta: quem ficou? que tipo de homem e mulher ficou por cá?

publicado por António Luís Catarino às 19:33

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