Domingo, 19 de Fevereiro de 2006

ABRASIVAS, DE JOÃO PEDRO MÉSSEDER

JPMess foto.jpg

João Pedro Mésseder nasceu em 1957, no Porto. Colaborador de várias revistas e jornais em Portugal e na Galiza, ensina e faz poesia. Atento e inconformado, pessoa da generosidade, da firmeza e da convicção tem ainda a capacidade de se ofender (e dizê-lo a toda a gente) com a desdita de outros. Os livros fazem o poeta e o seu contrário também é verdadeiro. Atrevo-me a destacar (palavra de que não gosto) alguns dos seus:
• A Cidade Incurável. Lisboa: Caminho, 1999.
• Fissura. Lisboa: Caminho, 2000.
• Espuma. Porto: Edições Eterogémeas, 2001 (ilustrações de Emílio Remelhe; apresentação de Francisco Duarte Mangas).
Organizou igualmente a Antologia de Carlos de Oliveira A Leve Têmpera do Vento e tem na literatura infantil vários livros. Destaco os três últimos: O Aquário, editado pela Deriva, A Palavra que Voa, da Caminho e o Mundo A Cair aos Bocados, pela Campo das Letras.
Esteve e está presente desde há alguns anos em inúmeros trabalhos colectivos como não podia deixar de ser, destacando aqui o seu trabalho nos Encontros Franco-Luso-Galaicos de Literatura Infanto-Juvenil que todos os anos se realizam na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto.

abrasivas.jpg

A edição de Abrasivas foi das mais entusiasmantes que senti como editor. Em primeiro lugar, pela própria personalidade do autor que empresta seriedade, rigor e autenticidade ao que faz transmitindo esses valores a todos os que trabalham com ele. E porque se tratou, de facto, de um trabalho colectivo é de realçar um factor que nunca foi falado em qualquer circunstância, até agora, nas apresentações do livro: a simplicidade é extremamente difícil de ser conquistada. Penso mesmo que, a partir da edição do Abrasivas, nada será igual lá na Deriva. Veja-se, pois, com cuidado, estas aparentes verdades:

Ponto 1 de uma meia-verdade: a capa é branca e as letras pretas de uma fonte simples. A verdade total: a capa não é totalmente branca, recusa o liso, adopta a rugosidade horizontal e a sombra de um papel já abandonado e amarelecido pela tipografia na altura febril das edições natalícias onde este livro não se viu porque se ia dar mal. Resta-nos a fonte simples das letras pretas. A fonte foi feita propositadamente para este projecto. Ou seja, não existe noutro livro algum.

Ponto 2 de mais uma meia-verdade: Uma simplicidade destas não requer outro tipo de intervenção que não sejam os poemas por si só. Não é assim: os poemas são acompanhados pelo trabalho de dois artistas plásticos e ilustradores por vós conhecidos: Emílio Remelhe que numera e assina cada lixa (abrasiva, portanto) na 2ª página de rosto e por Gémeo Luís que recorre a uma intervenção gráfica pensada e repensada ao pormenor.

Ponto 3 de outra meia-verdade: a poesia aforística de João Pedro Mésseder não necessita de outros tratamentos. Lê-se e interpreta-se por si. Sendo verdade esta última, não é verdadeira na sua totalidade porque uma forma linguística galega aproxima-se como um espelho em cada página da esquerda através do trabalho de Anxo Tarrío Varela e de Blanca-Ana Roig Rechou da Universidade de Santiago de Compostela. Assim Gémeo Luís preferiu diminuir as letras e a paginação da expressão galega de modo a parecer um espelho, objecto referido com grande beleza em pelo menos dois aforismos deste livro singular.

Ponto 4: no posfácio de Ana Margarida Ramos, antes de uma fotografia onde sobressai o olhar atento e interrogativo do autor, ela diz: «nos textos de João Pedro Mésseder, está, ainda, latente uma ironia fina e cortante que interpela o Homem, as suas acções, valores e comportamentos. Aliás, trata-se mesmo em alguns casos, de questionar a espécie humana, como ilustram os textos que aludem à guerra, à política, aos meios de comunicação, aos atentados ambientais e aos sentimentos vis e mesquinhos». E continua: «A escrita parece resultar, pois, de um ritual simbólico associado à Palavra, configurando uma criação literária que, a atendermos também ao título do livro, se aproxima de uma poesia táctil, desafiadora ao toque, áspera, na medida em que revela leituras que decorrem de uma apropriação sensorial, às vezes interseccionada pelo imaginário, do real e do quotidiano».

Despeço-me de vós com dois poemas - a Lógica da narrativa (Palestina/Israel, 2003), na pág. 9:

«Contra o fogo continuado dos que imolam os cordeiros de Alá, o fogo descontínuo dos cordeiros que se auto-imolam. Com ambos explode o equilíbrio de outros. Como em todas as narrativas, o equilíbrio final é diverso do inicial.»

e na pág.19 – À sombra de O’ Neill:

«Portugal: três sílabas debruçadas sobre o mar. Galiza: três sílabas debruçadas sobre Portugal.»

Póvoa de Varzim, 17 de Fevereiro de 2006.
publicado por António Luís Catarino às 14:06

link do post | comentar | favorito
|

.Janeiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Os jornais descem de audi...

. Morte de Pinochet

. Ruben de Carvalho e o mal...

. Bolas de ténis no ar

. Archie Shepp na Casa da M...

. Ratzinger ou Bento XVI, v...

. Consensos deste país

. A Bela e o Major

. A Liga

. Incompreensões

.arquivos

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

.arquivos

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

.mais sobre mim

.subscrever feeds